A mudança constitucional trazida pela reforma da previdência (PEC 103/2019)
Com a promulgação da EC 103/2019, o art. 37 da Constituição passou a contar com o §14, segundo o qual a aposentadoria concedida com a utilização de tempo de contribuição decorrente de cargo, emprego ou função pública importa o rompimento do vínculo que gerou esse tempo.
A norma foi interpretada por muitos entes públicos como autoaplicável e de incidência imediata.
A partir disso, multiplicaram-se atos administrativos de exoneração e rescisão contratual de servidores estatutários e empregados públicos celetistas que obtiveram aposentadoria pelo Regime Geral de Previdência Social. A questão central é saber se ela pode alcançar situações em que o direito à aposentadoria já estava consolidado antes da entrada em vigor da reforma.
Direito adquirido às regras aplicáveis antes da reforma
Cumpre destacar que a própria EC 103/2019 preservou expressamente o direito adquirido. O art. 3º da Emenda assegura que a concessão da aposentadoria será garantida “a qualquer tempo” àquele que tenha cumprido os requisitos até a data de sua vigência. Essa previsão não é meramente retórica. Trata-se da reafirmação de um princípio estruturante do Estado de Direito: o direito adquirido, protegido pelo art. 5º, XXXVI, da Constituição, constitui cláusula pétrea.
No âmbito previdenciário, a implementação dos requisitos consolida o direito ao benefício sob o regime jurídico vigente naquele momento. A concessão posterior pelo INSS possui natureza declaratória, e não constitutiva. O direito nasce quando o tempo e os demais requisitos são preenchidos, não quando o processo administrativo é finalizado. Por essa razão, se o servidor ou empregado público já havia completado os requisitos antes de 13 de novembro de 2019, permanece submetido às regras anteriores — que não previam o rompimento automático do vínculo.
O entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal
A matéria foi enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 655.283 (Tema 606), no qual se reconheceu que a demissão de empregado público por motivo de aposentadoria possui natureza constitucional-administrativa, atraindo a competência da Justiça Comum. Posteriormente, a Corte aprofundou a discussão na Reclamação 79.937/SP, afirmando que a aposentadoria concedida após a EC 103/2019 rompe o vínculo nos termos do art. 37, §14, mas ressalvando expressamente as situações alcançadas por direito adquirido anterior à reforma.
O ponto decisivo do precedente não foi a mera data formal da concessão, mas o reconhecimento de que a demora administrativa não pode prejudicar o segurado que já havia preenchido os requisitos. A Corte reafirmou que o regime jurídico aplicável é aquele vigente no momento da consolidação do direito, em observância ao princípio do tempus regit actum.
Abrangência da tese: União, Estados e Municípios
A controvérsia não se limita a empresas públicas federais, como a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. A tese possui alcance nacional e incide sobre toda a Administração Pública, direta e indireta. Empregados públicos celetistas, servidores estatutários, trabalhadores de empresas públicas e sociedades de economia mista, em qualquer esfera federativa, estão submetidos à mesma moldura constitucional.
O critério permanece uniforme: implementados os requisitos antes da reforma, não há fundamento para rompimento automático do vínculo.
A questão específica das leis municipais pós reforma que determinaram o desligamento de servidores
Após a reforma, diversos municípios editaram normas prevendo vacância automática do cargo ou extinção do contrato de trabalho com a concessão da aposentadoria. Em cidades como Vinhedo, Campinas e Ribeirão Preto, houve aplicação prática dessa interpretação, com desligamentos administrativos fundamentados na nova redação constitucional.
Entretanto, a autonomia legislativa municipal encontra limite na Constituição. Leis locais não podem ampliar o alcance temporal do art. 37, §14, nem afastar a proteção conferida ao direito adquirido. Quando aplicadas a situações consolidadas antes da EC 103/2019, tais normas tornam-se materialmente inconstitucionais no caso concreto.
O controle, nesses casos, é difuso e incide sobre o ato administrativo que aplicou a norma de forma retroativa.
Consequências jurídicas do desligamento indevido
Quando o ente público promove o desligamento sem verificar a existência de direito adquirido anterior à reforma, o ato administrativo revela vício de legalidade e de constitucionalidade. A consequência jurídica é a nulidade do desligamento, com possibilidade de reintegração ao cargo ou emprego anteriormente ocupado, além do restabelecimento das vantagens suprimidas e do pagamento das parcelas retroativas correspondentes. No caso de empregados públicos celetistas, também se discutem os reflexos sobre FGTS e demais verbas contratuais.
Mais do que uma discussão remuneratória, trata-se de preservar a coerência do sistema constitucional e a confiança legítima do servidor que estruturou sua vida funcional sob determinado regime jurídico.
Conclusão
A EC 103/2019 modificou substancialmente o regime previdenciário brasileiro, mas não autorizou a supressão retroativa de direitos já incorporados ao patrimônio jurídico dos servidores e empregados públicos.
O art. 37, §14, deve ser interpretado em harmonia com o art. 5º, XXXVI, da Constituição e com as regras de transição da própria Emenda. A aplicação automática da norma, sem exame da situação individual do servidor, compromete a segurança jurídica e viola a proteção constitucional ao direito adquirido.
O debate exige análise técnica precisa do momento de implementação dos requisitos previdenciários e da fundamentação do ato administrativo de desligamento. Em muitos casos, a revisão judicial tem se mostrado o caminho adequado para restabelecer a conformidade constitucional.